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SEM ESCOLHAS - CAPÍTULO 9

E como uma boa menina ali estava eu escrevendo, escrevendo e escrevendo.
Eu achava com todo meu conhecimento sobre cadeias (nenhum) que não seria permitido uma pessoa dentro das celas ter caderno e caneta. Principalmente caneta por poder ser usado como perfurante. Mas lá estava  eu com uma caneta e um caderno. Deve ser porque eu não estava numa prisão de verdade, ainda me encontrava numa delegacia, porém quanto tempo eu ficaria ali? E de fato eu seria presa? Quanto tempo eu teria que esperar até o julgamento?
Sei de pessoas no Brasil, principalmente negras e pobres que ficam anos na cadeia sem sequer terem sido julgadas. Muita gente presa, muita gente inocente e no final todo mundo assina como bandido, porque se não era, se torna... Em continuação àquele pensamento, qual tipo de bandida eu me tornaria? Eu era magrela, sem muita massa muscular, provavelmente nao botaria terror em ninguém. Talvez eu me tornasse uma estelionataria, ou traficante, até que eu era boa de conta, acho que daria conta de pesar, somar e vender.
-Foco, Camila, foco! - Dizia eu para eu mesma olhando para aquele caderno cheio de palavras. Minha mão ainda doía um pouco do corte que dera início a tudo isso e comecei a me questionar se algum dia aquela dor passaria, pois quando eu apertava a cicatriz que começava a se formar, doía boa parte do meu corpo e de quebra apertava meu coração.
Parte de mim queria terminar logo de escrever e dar check nessa tarefa, a outra parte estava com medo de que nao havia nada para fazer depois daquilo. Resolvi acreditar que seria mais util estar pronta seja para daqui 5 minutos, seja para daqui 5 dias. Me recusei a pensar em um prazo maior que esse.
Foram 8 paginas escritas, algumas borradas devido as lágrimas que escapuliram numa lembrança ou outra, mas nada que atrapalhasse o entendimento da história. Relendo tudo percebi o que o Ricardo queria dizer com "coisas que nao batiam". Muita coisa nao fazia sentido se me colocar como única protagonista na história, temos um assassino a solta e não sou eu.
- Toc, toc - O guarda disse ironicamente simulando uma cordialidade. - Aqui está a refeição da senhorita, infelizmente nesse país ainda somos obrigados a alimentar infratores. - Jogou a bandeja no chão, sem nenhum cuidado para que não caísse, minha sorte é que a comida permaneceu dentro da bandeja. Acho que até se eu virasse de cabeça para baixo ela permaneceria no mesmo lugar. Ele riu debochado e saiu.
A única coisa que me veio a mente foi como subestimamos a importância de pagar bem essas pessoas, ou talvez seja algo proposital, pobre matando pobre também pode ser uma estratégia de governo.
Recolhi minha comida jogada no chão, que por sinal não era muito bonita, mas era comida. 
Ao ensaiar a primeira colherada, percebi que tinha algo em meio ao arroz que mesmo sendo branco tinha um aspecto diferente. Retirei com nojo na expectativa que fosse um verme, no entanto era um pedaço de papel enrolado. Desenrolei o papel e para minha surpresa ele estava ali de forma proposital.
- Se duas mãos enforcam, uma é mais assassina que a outra? - li em voz baixa e percebi que aquilo ali não era uma piadinha de uma guarda mal pago. Quem enviou sabia de mais coisas sobre aquela noite do que eu mesma. Seria uma mensagem do próprio assassino? Precisava guardar aquele bilhete junto com meu caderninho, quando Ricardo voltasse talvez aquilo poderia ajudar.
Comecei a mexer na comida e consegui derrubar mais arroz no chao do que o proprio infeliz que tinha tentado fazer de forma proposital, porém ali não havia mais nenhuma outra pista escondida.
E se eu tivesse comido o papel? Quem me conhecesse sabe que isso seria um possibilidade, mas talvez a leitura desse recado nao seja alguem tentando me ajudar, ou nao faça diferença na minha situaçao. Afinal, quem iria acreditar que além de toda essa história sem pé nem cabeça, eu ainda estou recebendo  bilhetes na comida de um possível suspeito, e detalhe, na comida da delegacia, sem ao menos levantar suspeita.
Concordo que nao seria tao dificil subornar aquele guardar, qualquer "20 conto" deveria bastar se o objetivo fosse tornar a vida de quem estava ali mais infeliz. Quanto eu precisaria pagar para ele me dizer um pouco mais sobre meu "comunicador secreto"? Valia a pena gastar neuronio pensando naquilo, afinal, eu estava zerada de dinheiro. Levaram ate minha dignidade no ocorrido. E tambem umas gotas de sangue, nao posso deixar de lembrar que foram boas gotas de sangue.
Consegui comer aquela comida medonha, o tempero (a fome), fez um bom papel para isso. As vezes meu nariz e garganta ainda arranhavam do pó que foi empurrado dentro deles. Quanto de experiencia uma pessoa teria que ter para se viciar num toxico? Nao deveria ser pela quantidade da droga, o tanto que eu consumi provavelmente era muito maior do que muitas pessoas consomem, somadas as pequenas doses que tiveram que ingerir, ate perderem o controle. Eu ja tinha perdido o controle, o pior de tudo é que eu não sabia quando foi e nem o porquê, ou o quê. Qual era o objetivo de tudo isso? Quem possuia interesse em me ver presa? Quem matou meu tio?

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