16 horas seguidas de sono. Era exatamente o que eu precisava e tive. Meu corpo ignorou o colchão fino e cheio marcas de suor que formavam uma estampa única. Eu ainda tinha dores, mas era um estado de entorpecência que prevalecia. Que horas seriam? Só Deus para me dizer, aquela cela estava extremamente silenciosa, mas a comida no chão me dizia que já tinha passado da hora do almoço.
Pelas moscas sobrevoando meu prato nada suculento de polenta com carne cozida, supus que teria que comer um prato frio e talvez com algumas larvas. Não me importava desde que eu não enxergasse nada e futuramente não me causasse alguma doença.
- Que comida horrorosa - resmunguei mastigando e engolindo com fome. Uma grande mentira é aquela que dizem que o melhor tempero é a fome, pra mim continua ruim do mesmo jeito. Bom, mas não está me impedindo de comer. Refleti naquele momento que se houvesse outro bilhete eu teria engolido com tudo sem perceber e por alguns segundos fiquei feliz com isso, eu não queria matar outra charada e duvidar de tudo e de todos, lidar com o fato de que estava sendo acusada de assassinar uma pessoa que embora merecesse morrer, eu não era a culpada.
Hoje era um dia que eu apenas estava lidando com os fatos, sem drama e cansada de chorar. Não tinha notícias dos meus pais ainda, da minha amiga Gess, não tinha tido acesso ao que estavam falando de mim de fato, será que era muito pior do que o Ricardo me disse? Quanto ele tinha filtrado? Conhecendo ele talvez muita coisa, no entanto, havia como ser pior do que a "Amante de negócios"?
- Amante de negócios... - repeti baixinho para mim mesma.
Comecei a rir compulsivamente entre os goles de água, se eu fosse condenada com todas aquelas acusações, teria sido a transa mais cara da minha vida, porque se eu não tivesse me relacionado com o Ricardo na noite anterior, eu conseguiria provar minha virgindade e as acusações teriam caído por terra. Pouco provável que eu tivesse acordado nas primeiras horas da manhã para comprar pão, eu nem tinha esse costume mesmo.
Engasguei e por alguns instantes achei que fosse morrer. Enquanto faltava o ar, era dor e desespero. A luta pela vida era instintivo, quando finalmente os pulmões recuperaram o ritmo normal percebi que talvez a morte tivesse sido um alívio e as lágrimas intercaladas com soluços tomaram conta de mim. Se tivesse alguém na cela ao lado teria plena certeza que a minha estabilidade mental estava afetada. O nome daquele turbilhão de emoções se chamava desespero e em curtos períodos de tempo, poderia ser considerado "normal".
Há poucos minutos eu me sentia estável e agora eu tinha ido pra baixo do fundo do poço. O que eu mais prezava na vida era minha índole, meu caráter. E nesse momento todos duvidavam dele, a pressão era tanta que vendo todos contra mim, me pegava perguntando se talvez eu não fosse a pessoa errada. Mas eu era a única que estava lá, fui a única a viver todos os atentados e a conhecer todos os envolvidos. Se eu fui a única a tocar na realidade, não era de se admirar que apenas eu tivesse certa.
Como eu traria a verdade a tona?
- Senhora Camila? - o guarda me chamou abrindo a cela
- Sim? - respondi voltando a realidade.
- Seu namoradinho conseguiu te soltar... por enquanto - ele enfatizou a última palavra, quase como um desejo. Pega suas coisas, se tiver algo e me acompanha.
Eu nao tinha nada ali alem de duas peças de roupa e uma escova de dente. Sinceramente preferia nao trazer de volta nada daquilo. Se eu pudesse deixar alguns pensamentos e feridas também deixaria. Olhei uma ultima vez para a aquela cela e agradeci a Deus por ter me preservado do pior.
Comentários
Postar um comentário