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SEM ESCOLHAS - CAPÍTULO 8

Aproximadamente 15 minutos depois eu terminei de contar tudo aquilo que estava até então só em minhas lembranças e mesmo quase formada em psicologia me impressionei como foi aliviante colocar para fora aquelas memórias ruins. Eu estava mais calma, não porque minha situação tinha melhorado de alguma forma, mas porque eu expus a ferida e aparentemente a simples exposição já possui poder analgésico.
        - Você sabe que alguns dados não batem né? - Disse ele depois de pensar em silêncio durante uns 4 minutos após minha história.
       - Eu não sei de nada, Ricardo. Achei que pudésse me ajudar nisso também.
       - Pra começar o motivo da morte do seu tio não foi traumatismo craniano ou algo relacionado à pancada na cabeça. Ele foi morto com uma facada no coração...
       - Igual à um porco... - As palavras simplesmente saíram da minha boca. Eu tinha falado sobre aquilo no telefone com a Gess antes de sair de casa, sobre como seria mata-lo e que teria que ser como um porco, com uma facada certeira no coração. Eu fiquei tonta por um tempo, isso significava muita coisa e a maior delas é que eu não era uma assassina! - EU NÃO SOU UMA ASSASSINAAAAAAAAAA! OBRIGADA MEU DEUS, OBRIGADA!! - Quando alguém me perguntar qual foi o momento mais feliz da minha vida um dia, com certeza eu responderei sobre esse momento. Nada se compara ao sentimento de bem estar consigo mesmo e saber que você ainda pode confiar nas suas lembranças e no seu sentimento.
       - CAMILA! CA-LA A - BO- CA! - Ele me segurou firme nos ombros e olhou fundo nos meus olhos - Escuta aqui, eu vim até aqui para tentar te ajudar a sair dessa. Eles já tem tudo na mão para te condenar, você é réu primária, na pior das situações você cumpre 5 anos na segurança máxima e se comporta podendo fazer prisão domiciliar depois disso. Agora se alguém achar que você está louca porque você não consegue saber o que fez ou o que não fez, um ano do tratamento psiquiatrico dado aqui no SUS vai levar você embora pra sempre Camila! Cala a boca e me ajuda a te ajudar. Agora fala para mim, o que você falou do porco?
      - Igual À um porco, ele morreu igual à um porco, foi só isso que eu disse - Ele sabia me colocar no centro novamente, embora tivesse precisado ser escroto.
       - Exatamente, igual a um porco... Vo..cê já matou um porco, Camila? - Ele me perguntou com um ar desconfiado
      - Nunca matei animal algum. Só aquele peixe que te contei e foi sem querer, você sabe disso - A história do peixe é triste e cômica. Quando tinha 10 anos assisti "Procurando Nemo"e insisti para meus pais para ganhar um "Nemo" e para minha surpresa ganhei. Mas quando ele veio naquele aquário minúsculo fiquei preocupada se ele não ia sentir falta da imensidão do mar e para tentar amenizar o sofrimento do "Linguado" (era o nome do peixe inspirado no desenho da Ariel), peguei sal de cozinha e joguei no aquário. Naquele dia quando voltei da aula aprendi que existem peixes de água doce e peixes de água salgada.
     - Bom, nessas horas vamos esquecer até o peixe, está bem? - Ele foi bem incisivo nessa frase, será que todo advogado era assim? Mas ele parecia um pouco incomodado, como se quisesse perguntar algo e estivesse exitando o tempo todo.
    - Camila, preciso te perguntar mais uma coisa. Na perícia encontraram sangue seu nas partes íntimas do seu tio, ele chegou a te abusar, nem que seja por alguns instantes? Podemos usar isso ao nosso favor, por favor não omita isso de mim. Eu entendo que pode ser vergonhoso para você querer falar disso, mas eu preciso saber, ok? -  Senti um calafrio só de pensar na possibilidade e ao mesmo tempo senti gratidão porque minha primeira experiência sexual tinha sido maravilhosa, embora eu fosse sempre lembrar de maneira dolorosa da segunda...
       - Foi só isso mesmo que eu te falei, minha mão cortada e cheia de sangue foi levada até o pênis dele, por ele. Por isso tem sangue meu nas partes íntimas daquele porco.
      - Certo, e em relação ao que o Mariano disse? Que vocês continuaram mantendo relações mesmo após o término? O que você me diz disso? - Ele estava confuso, podia ver em seu rosto. De alguma maneira todas aquelas mentiras tinham atingido seu orgulho.
     - Você acha que eu menti pra você quando disse que tinha sido meu primeiro homem? - Agora era o meu orgulho que estava ferido. Eu não tinha orgulho de ser virgem, isso não é merito para ninguém embora a sociedade goste de usar o hímen como troféu, mas eu simplesmente não me sentia a vontade de ter relações sexuais até aquela noite em que eu decidi que queria fazer. Eu tinha consciencia que em outras situações aquele dia ainda não teria sido O dia, mas eu queria garantir que ele fosse A pessoa e isso para mim já bastava. O que me feria o orgulho na verdade era ele achar que eu estava mentindo.
     - Você estava com  muito medo, assustada e talvez você tivesse tão decepcionada com o tipo de relação que você teve com aquele cara que nem quis chamar aquilo de sexo. Eu não sei Camila, não parecia algo novo para você quando fizemos, eu só quero ouvir de você e vai ficar tudo bem...
Como homens podem ser tão inseguros quando se trata da vida sexual da parceira? Nunca vi homem nenhum admitir que é ruim de cama, mas também nunca vi homem nenhum se sentir confortável em ouvir a parceira falar das relações já experimentadas. Até supor doía para eles.
      - Ricardo, eu era virgem até sexta-feira passada, quer você queira acreditar em mim ou não. Fui abusada sexualmente pelo meu tio da maneira que te descrevi aqui, fui estrupada por três homens na manhã de sábado como eu já te contei detalhe por detalhe, mas se o que te preocupa é quem tirou a PORRA do meu hímen, parabéns o troféu é seu. É isso que você queria ouvir? Parabéns, Ricardo, o troféu é todo seu! - Junto com meu discurso eu acrescentei as palmas quando pronunciava a palavra parabéns. Sim, eu sabia ser bastante irônica.
      - Camila, desculpa. É muita informação para mim, você precisa entender que para mim não está sendo fácil. Nosso namoro sempre foi escondido, você sempre teve muitos problemas com seus pais, o fato de você ter saído escondida no sábado de manhã depois de tudo que aconteceu e levando minha carteira e meu cachorro... Eu tenho muitos motivos para pelo menos me questionar. Não estou dizendo que você é uma pessoa ruim, mas são tantos pequenos detalhes que não é possível que nada seja real, entende?
      - Eu ia comprar um café da manhã legal para nós, porque eu não tinha conseguido dormir direito e queria sair da cama. Levei o Mike porque achei que ele fosse gostar de passear e também para me sentir mais segura, pois ainda era muito cedo. Não quis te acordar, você estava dormindo pesado, na minha cabeça eu ia voltar, preparar uma bandeja de café da manhã, te mimar e só então criar coragem para te dizer o que tinha acontecido na noite anterior. Eu sabia que tinha que te contar, eu só queria ficar mais calma, nunca que eu ia imaginar que seria sequestrada enquanto ia até a padaria.
      - Você é a garota mais azarada que eu já conheci em toda a minha vida... - Olhamos um para o outro, rimos e nos abraçamos. Podia não parecer, mas nosso amor era leve. Quantas vezes não tivemos discussões que pareciam enormes e de repente, um fazia uma piada com o outro e ali esquecíamos o porquê da briga.
      - Nosso tempo está acabando, meu bem. Vou entrar com o pedido de habeas corpus, provavelmente terei que pagar alguma fiança e talz, mas não é bom você ficar muito tempo aqui. Pelo que me contou ainda vai ser necessário você passar por um médico. Aliás não sei o que eles estão esperando para isso, enfim, saindo daqui hoje eu ainda vou resolver algumas coisas para você. Ainda que não nos vejamos mais hoje, quero que você dê um jeito de ficar tranquila. Quero que escreva tudo que você me disse, quanto mais detalhes, melhor. Depois que você escrever quero que deite e tente dormir, assim que acordar e reler o que escreveu tenho absoluta certeza que você encontrará algum link ou lembrará de mais alguma informação importante que usaremos no seu caso.
       -Yes, Sir. - Rimos mais uma vez e demos nosso último beijo. Eu ainda tinha dores no corpo todo, mas eu toleraria por muito tempo um abraço apertado daquele. A dor emocional de não saber qual a próxima vez nos veríamos era muito maior, com certeza.
E então as grades se abriram, não para minha liberdade, mas para que eu voltasse à minha inicial solidão
 
   

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