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SEM ESCOLHAS - CAPÍTULO 7

Cof Cof Cof Cof Cof
              Minha garganta ainda sentia o gosto do líquido branco. O gosto, a textura e as consequências.
Eu bebia água o tempo todo. Durante o trajeto bebi uma garrafa inteira de dois litros que um policial gentil me ofereceu. Gentileza nesse caso era não me xingar.
Minha cabeça fazia círculos tentando resolver aquele embaraço, como eu tinha parado naquela situação? Quem tinha algum interesse em me ferrar? Quem se beneficiaria com minha prisão?
Eram muitas perguntas a serem respondidas, mas a maior de todas, quem era cúmplice do Mariano?
De todas as acusações, talvez eu já tivesse resposta para uma. O maior traficante da região era nada menos que o próprio Mariano. Enquanto namoravamos ele sempre gostava de ir nos lugares mais caros, pagar para todos os amigos e eu não entendia como o dinheiro dele dava conta, afinal ele era apenas um sócio de uma pizzaria que nem era a melhor da cidade. Pra ser bem sincera, eu nunca pedia pizza de lá, nem para prestigiá-lo.
              Agora muita coisa fazia sentido, o pagamento sempre era em dinheiro, tinha dias que a pizzaria simplesmente não abria, finais de semana seguidos atendendo "apenas por encomenda". Fora que sempre achei aquele lugar mal frequentado e ele dizia que era porque a pizza dele era acessível para todas as classes.
             Como linkar tudo isso com o assassinato do meu tio? Afinal, eu o tinha matado? Seria possível uma menina de 60 kg matar com uma garrafa de coca-cola um ser de 120 kg? Se sim, porque raios eu não ativei esse superpoder quando os noias magrelos me seguraram?
             A única pessoa que sabia onde eu estava era a Gess, não era possível que ela teria me traído a ponto de querer me matar, porque se aquilo não foi tentativa de homicidio, eu chamaria do que?
             Bom, era melhor eu esperar o Ricardo que possui mais experiência nessas situações de crime e guardar um pouco do que restou da minha sensatez para o momento que ele chegasse. Mas, e se o Ricardo também estivesse envolvido? Como o Mariano poderia saber que horas eu saí de casa? Mas o Ricardo estava dormindo, eu tomei o cuidado de verificar isso... E por que raios o Ricardo e o Mariano seriam parceiros de crime? Eles se odiavam. Ou seria tudo isso tramado há séculos? Bom, seria pretensão demais achar que alguém ocuparia seu tempo armando um plano diabólico contra uma Zé Ninguém como eu, afinal eu ainda não era uma "Shakira". Respira Kamila. respira.
            As informações simplesmente não batiam, eu precisava saber quem estava me acusando. Quem descobriu que eu tinha tido uma luta corporal com meu tio, ou que simplesmente eu tinha acertado a cabeça dele com a garrafa? Quem estava acordado naquela noite e poderia querer me incriminar?
           Mas, e se na verdade alguém se aproveitou que eu tinha feito o trabalho de desacorda-lo e foi lá e só finalizou? Era perfeito, não era?
           E essa história de herança? Como eu poderia saber disso? Como isso me interessaria? Meu tio tinha duas filhas e 8  netos, como eu seria beneficiada disso? Ah, não ser que alguém soubesse detalhes dessa herança e tivesse se incomodado de alguma forma que eu tinha sido incluída. Alguém que poderia ter sido deixado de lado e tinha expectativa sobre isso. Sendo assim, minhas suspeitas se reduzem para 2 filhas, 8 netos e a esposa. Porém, dos 8 netos, 4 tinham menos de 15 anos. O número na minha cabeça já estava bem reduzido, mas mesmo assim eu não via motivo de ninguém ali querer me ver presa/morta.
         Estava imersa no meu raciocínio quando ouvi barulho de passos e depois de chaves. Ao olhar para cima eu o vi e depois desse momento só pude ouvir meu coração disparando e sentir meus olhos se encherem de água até perderem toda a função de enxergar. Ele entrou na cela e sem dizer uma palavra sequer eu corri em sua direção e o abracei. Eu o amava. Eu o amava. Eu o amava. Nada dói mais e reconforta mais do que abraçar e sentir o cheiro de uma pessoa que você estava longe há algum tempo. A saudade dói nos primeiros dias longe e volta a doer nos primeiros momentos perto, que é justamente quando você lembra o porquê ama o outro. O toque, o cheiro, a voz...
        Olhar para ele e ver aquele olhinho torto, o mesmo perfume, o mesmo toque suave das mãos. E foi suavemente que ele me afastou para me olhar nos olhos. Ele tentou segurar, mas eu sabia decifrá-lo, ele também estava com saudades, ele também queria me ter por perto e me levar para longe. Os olhos diziam saudade, mas os lábios comprimidos e as mãos apertando meus ombros demonstravam raiva e medo. Preferi não dizer nada, só olhar para ele e fazer com que ele reconhecesse a Kamila lá de trás, a inocente, a imatura, a problemática e apaixonada. Uma estudante de psicologia e nada mais.
       - Meu Deus, você é só uma menina. Só uma menina - E com essa frase ele me trouxe de volta para seus braços, me apertando forte e repetindo, não sei se para mim ou para ele mesmo. Ele usava essa mesma frase quando eu fazia algo muito ingênuo ou que ele considerava "jovem". Devido a nossa diferença de idade, ele às vezes se via não como namorado, mas como responsável e orientador.
      - Me desculpa por tudo, eu não tinha ideia que ia terminar assim. Eu não sei quem tá fazendo isso comigo. Porque? - Disse eu no meio de tantos soluços e lágrimas.
      - Tudo bem, se acalma. Respira. Respira fundo. Você precisa se acalmar, meu bem. Nós só temos 40 minutos e precisa ser o necessário para conseguirmos sair do zero. Sua situação está complicada e me desculpa dizer isso, mas duvido muito que alguém mais além de mim irá acreditar em você. - Eu me afastei nesse momento, limpei meu rosto e soluçando ainda e fiz que sim com a cabeça. Iniciei uma técnica de respiração profunda que tinha visto uma vez em um filme e tentei me acalmar.
      - Vamos lá, meu bem. Diga para mim a sua versão da história. Preciso que comece do início, com o máximo de informações que você conseguir se recordar. Não importa o que você tenha feito, agora eu não sou seu namorado, agora eu sou seu advogado. Não estou aqui para te julgar, estou aqui para tentar resolver sua situação e vale lembra que ela não é boa. Se você tentar me enganar, nós dois podemos nos dar muito mal. Está claro isso para vc, Kamila?
      - Sim... - Minha voz quase não saiu, ainda estava usando a técnica de respiração. Na verdade nem sabia se poderia chamar aquilo de técnica, mas de fato estava ajudando. Conforme eu ia me acalmando contava um trecho da história. Iniciei pela história da Coca, do meu tio, dos anos de assédio, e por fim o que eu lembrava das cenas finais com o Mariano. Como um aluno aplicado eu vi Ricardo anotar basicamente tudo e não pude dessa vez decifrar o que se passava naquela rosto treinado a não demonstrar emoções.

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