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A Guerreira e o Rei


Era um baile de máscaras, onde todos deveriam esconder suas identidades e ser por um dia aquilo que sempre sonhou.
O grande atrativo de um evento assim, é que talvez o objetivo é justamente o contrário, utilizando máscaras podemos ser nós mesmos, sem nos preocuparmos com julgamentos.
A maioria dos meus amigos não vestiria necessariamente uma máscara, mas combinamos todos de usarmos fantasias que nos deixasse irreconhecíveis. Eu me vesti de guerreira, porque era mais ou menos assim que eu me identificava. Uma mulher, não mais menina, que vivia sozinha, independente, com algumas cicatrizes e que lutava por aquilo que acreditava.
Era difícil encontrar uma armadura para alguém do meu sexo e do meu tamanho, foi quando eu descobri que as armaduras tinham de ser personalizadas, feitas individualmente para cada guerreiro. E assim resolvi desenhar algo para mim. Tentei fazer algo parecido com Xena e ao mesmo tempo com Lara Croft.
Meu coração estava protegido com um corpete estilo Xena, mas minhas pernas podiam correr a lá Lara Croft. Fora que o conjunto não me deixava tão vulgar. Desenhei de uma forma que escondesse o máximo minha cicatriz. Ela estava situada próxima a escápula esquerda, um pouco acima do coração, onde eu tinha sido apunhalada com uma faca por um ex-namorado, o corte tinha sido profundo e embora já fazia algum tempo, a exposição nunca deixava cicatrizar por completo.
Era desagradável ter sempre que responder o porquê da cicatriz, e se eu deixasse exposta todos saberiam quem era eu.
Vesti minha autêntica armadura, coloquei minha máscara e fui.
Ao chegar lá me surpreendi com a quantidade de pessoas, e como todas pareciam seguir o mesmo padrão. Os homens quando não usavam roupas normais e apenas a máscara de acessório, estavam usando fantasias engraçadas como o antigo super-homem com a cueca por cima. As mulheres por sua vez estavam todas de princesa, algumas inclusive de sapatinho de cristal.
Seria impossível encontrar meus amigos ali.
E como num ato de desistência, busquei um lugar para sentar bem próximo da mesa de comes e bebes. Eu tomava meu drink e procurava no meio da multidão alguma silhueta conhecida.
Foi quando ele se aproximou. Alto, esguio, sorriso largo e cachos dourados.
- Posso me sentar aqui? – Perguntou ele, retirando a coroa num gesto de cumprimento.
- Poderia um príncipe se sentar numa mesma mesa que uma guerreira? – Retruquei, sorrindo de volta.
- Um príncipe não sei, mas um rei creio que pode.
- O rei tem nome? – Bebi mais um gole e fiquei esperando sua reação.
- Rei Artur e você? – Ele puxou minha mão e beijou cuidadosamente me olhando nos olhos. Nunca alguém havia beijado minha mão. Fiquei com vergonha porque não tinha mãos de princesa, como se espera das mulheres. Puxei rapidamente minha mão e tentei me levantar. Ele se pôs em pé primeiro e com apenas um gesto me pediu desculpas e insinuou que não me tocaria mais.
Eu sentei de volta, um pouco sem graça pela reação que tive.
- Atenna – Respondi- Meu nome é Atenna.
- Você é a deusa ou esse é seu nome de verdade?
- É meu nome de guerra. – Rimos juntos quebrando o gelo.
A noite foi passando e eu fui me sentindo mais à vontade ao lado do Rei Artur. Ele me contou várias histórias de como apesar de um rei, também era guerreiro e tinha vencido várias batalhas. E em tudo que ele fazia coincidia com a realeza que ele vestia. A educação, a forma de falar e gesticular, os cachos dourados. Passamos metade da noite conversando e ele cumpriu a promessa, não me tocou em tempo algum.
Ele era bonito e não precisava se dar ao luxo de conversar com apenas uma garota durante todo aquele tempo, ele não mostrava interesse em voltar para a festa. Ele estava compenetrado na bolha que havíamos criado.
E quando a música ficou lenta, ele me convidou para dançar. Eu não poderia recusar. Não se recusa o pedido de um rei. Dançamos abraçados, olhando nos olhos um do outro, sentindo a respiração e o coração. Mesmo através da armadura eu podia sentir seus batimentos cardíacos que estavam acelerados. Eu estava sedenta pelo beijo, mas nada aconteceu.
Ele me puxou pela festa e me tirou do lugar coberto. Fomos para uma praça, mesmo fora do salão ainda podíamos ouvir a música. Ele segurava minha mão, mas me conduzia imitando casais nobres. Então ele me soltou e caminhou um pouco à frente. Tirou uma espada de suas costas.
- Eu, Rei Artur, te nomeio Atenna, como guerreira defensora do reino e de seu rei, meu braço direito e líder de todo meu exército. E todo aquele que falar contra ti, estarás falando contra mim e contra todo o meu povo. A punição será a morte. – E com a espada ele me batizou tocando primeiro no meu ombro direito, na minha cabeça e depois no ombro esquerdo. – Eu sorri e por um momento acreditei que ele era rei. Meu rei. A quem eu senti que mereceria o esforço de uma batalha.
Ele guardou a espada e veio em minha direção. Ele me tomou em seus braços de maneira terna e febril e me beijou. No primeiro abraço já senti uma ponta no meu peito esquerdo. Era minha cicatriz. Eu achava que minha armadura estava machucando, tentei disfarçar a dor, mas ele me abraçava cada vez mais forte, comprimindo a armadura contra minha cicatriz.
Ele percebeu e eu disse o que estava acontecendo, não disse o porquê da cicatriz, não precisava dizer, ele era educado, um lord, não me perguntaria sobre isso. O rei então me sugeriu que retirasse a armadura. E então eu entendi o porquê que eu escolhi armadura. O medo ainda estava em mim, eu tinha medo de outra facada, de me machucar outra vez.
Eu hesitei em retirar a armadura e ele me respeitou. Mas ele já não me abraçava com tanta força e eu queria aquele abraço. Eu teria que escolher entre o medo e viver tudo o que aquele momento poderia me oferecer.
Eu escolhi arriscar. Eu me afastei um pouco e me desvencilhei da armadura. Ele não era o tipo de homem que me atingiria com uma faca. Ele era um rei, certo?
Ele viu minha cicatriz, beijou minha pele nua e voltamos aos abraços apertados. Então eu entendi, não era a armadura que me machucava, eram os abraços dele. E a cada beijo, a cada caricia eu sentia que minha ferida, agora exposta, estava a ponto de se abrir. Mas mesmo com receio, eu não queria parar.
Meu celular começou a tocar, demos uma pausa e atendi. Eram meus amigos me procurando, queriam tirar ao menos uma foto juntos para pôr no nosso álbum de formatura. Eu expliquei ao rei o que estava acontecendo, e ele disse que me esperaria.
Que lord, pensei.
Pensei em tirarmos uma foto juntos, eu e ele, para registrar aquele momento de encontro de uma guerreira e um rei. Afinal, eu me tornaria rainha ou ele se tornaria guerreiro? Fui encontrar meus amigos com esse questionamento. Contei para as meninas sobre o Rei Artur e como era um gentleman. Contei sobre o batismo com a espada e sobre seus cachos dourados. Prometi que na volta tiraria uma foto para mostrar para elas.
Fui de volta encontrar meu rei, mas não tinha ninguém ali.
Olhei ao meu redor tentando encontra-lo, talvez ele quisesse me fazer surpresa. Mas não era isso. Poderia um rei mentir?
Caminhei um pouco mais no parque e encontrei pedaços do que parecia ter sido uma coroa. Quando toquei, percebi que eram de plástico. Mas reis não usam coroas de plástico, pensei.
Foi então que eu finalmente entendi que deveria parar de procurar. Minha cicatriz tinha aberto e eu já sentia o sangue escorrer. Com dor no peito disse para mim mesma que não havia rei para procurar, porque ele era apenas um homem.

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