Eu não estava prestando atenção no caminho. Aliás eu não conseguia prestar atenção em coisa alguma. Tudo o que estava passando na minha cabeça era o fato de que meu tio tinha levado facadas e estava morto. Eu não lembrava de ter usado a faca contra ele, eu só quebrei um vidro de coca em sua cabeça, certo?!
O meu corpo todo tremia e as lágrimas caíam involuntariamente. Mike estava no banco de trás, mas lambendo minha cabeça compulsivamente numa tentativa de me tirar do transe. Eu repassava o momento várias vezes na minha cabeça e as lembranças já começavam a se confundir com meus sonhos. E se a Camila Ruim fosse a Camila Real? E se aquilo não tivesse sido um sonho, mas e se a minha mente tivesse apagado de minha memória aquele assassinato de maneira que então eu não me traumatizasse? Isso era biologicamente possível, já tinha estudado isso.
De repente o carro parou.
- Camila, você precisa descer do carro. Vem, você precisa se acalmar.
Foi quando eu voltei a mim. Eu não conhecia aquele lugar. Tudo ao meu redor era verde, era visível que não estávamos mais na cidade.
- Onde estamos?- Pude finalmente perguntar.
- Não se preocupe, você ficará bem. - Ele me puxou para fora do carro, deixando Mike trancado. A mão dele estava tremendo, mesmo me apertando forte eu pude notar. Seu maxilar estava travado, como que contendo o choro. Antes de conseguir abrir minha boca para dizer algo, ele me empurrou para dentro da casa, onde meu rosto conheceu o chão primeiro que meus pés.
Antes que eu pudesse levantar, existiam quatro braços me segurando. Eram dois rapazes que eu nunca tinha visto na vida, mas não era preciso saber seus históricos para temer num simples olhar. Eles tinham a cabeça raspada e dentes podres. Seus rostos eram chupados e a pele totalmente sem vida. Não era necessário ser especialista para entender que eram drogados. Demorou para cair a ficha de que o Mariano estava realmente envolvido naquilo e não era apenas uma vítima como eu.
Ele sempre se disse muito apaixonado por mim, como uma pessoa que ama a outra poderia lhe fazer mal?
Quando tentei me libertar daquelas mãos, encontrei os olhos de Mariano, numa mistura de satisfação e dor.
- Você é a culpada de tudo isso! Só você - Ele estava fora de si, chorava e gritava apontando o dedo para mim. A minha mente estava numa mistura de "você tem que manter a calma e usar a psicologia a seu favor" e "fuja, sai daí que ele vai te matar".
- Mariano, eu... - Não fui capaz de completar a frase, um braço apertou meu pescoço de maneira que eu mal conseguia respirar. O rapaz era magro, mas era homem. Ele conseguiu me imobilizar de maneira q fiquei na ponta dos pés e levantando minha cabeça numa tentativa de aliviar a pressão nas minhas vias respiratórias.
Eu vi o Mariano vindo na minha direção, por um momento me senti grata que ele iria me salvar. Mas depois eu vi em sua mão uma seringa com um líquido branco. Não existia agulha, o que ele iria fazer?
- Eu sou tão bonzinho que você não irá se lembrar de nada - Ele segurou minha mão e injetou o líquido no meu nariz. Nesse momento começou uma luta no meu corpo entre vida e morte. Eu queria tossir, expelir o líquido de alguma forma, mas eu estava impossibilitada de me mexer. Os drogados trataram disso muito bem.
O líquido não era uma solução perfeita, eu sentia o pó na minha garganta tampando minha respiração. Tão ruim quanto engasgar com farinha. Quando achei que fosse perder os sentidos, o contrário aconteceu. Meu coração palpitava mais forte e muito mais rápido, eu sentia a veia do braço do drogado pulsando, uma onda de calor foi me tomando de maneira que eu me sentisse consciente de tudo que estivesse a minha volta com uma temperatura menor que a minha, e a sensação era que eu era o sol daquele ambiente.
Eu senti meu corpo absorvendo aquele líquido e cada fração daquele pó branco. Pó branco. Batimentos cardíacos elevados. Sim, aquilo só podia ser cocaína.
Embora eu estivesse consciente de cada célula do meu corpo, eu não conseguia mexe-lo da forma que queria. Meu corpo tremia em ritmos desconexos entre suas partes.
Percebendo isso fui largada no chão, eu não podia dominar nem ao menos meu olhar. Senti a vibração de alguém se aproximando. Senti minhas calças sendo retiradas. Ouvi risadas ao fundo.Tentei gritar, tentei me levantar. Tentei fechar minhas pernas.
Uma lágrima minha caiu quando o senti penetrar. Ele segurou meu rosto e me fez olhar para ele.
- Hoje era o dia do nosso casamento. - Eu tentei lembrar a data que queríamos casar, mas meus pensamentos eram apenas flashes e não números. Os sons tinham cores e as cores tinham gostos. Sinestesia era para ser legal, mas estava me enchendo de angústia. - Você é minha, Camila! Você não será de mais ninguém! - Nesse momento eu pude sentir toda raiva que ele tinha, fazendo do colo do meu útero um saco de pancada. Eu não sabia se era sangue ou semên que escorria pela minha perna, mas eu já não tentava lutar mais.
Ele lambeu minhas lágrimas, beijou meus olhos e mordeu minha sobrancelha. Soltou um riso de satisfação.
- Você nem é tão boa quanto eu pensei - Nesse momento eu consegui encontrar seu olhar. Encontrei também descaso, orgulho ferido e raiva. Eu senti medo. Não era um medo comum, era um medo instintivo, quando a presa sabe que vai ser morta pelo predador. Tentei novamente comandar meu corpo em vão. Ele então se desconectou de mim, se ajoelhou, alongou os braços, estralou dedo por dedo, nunca tirando os olhos dos meus. Eu nunca tinha apanhado de um homem, foi quando senti o primeiro soco. Tinha gosto de ferro, era quente e tinha cheiro de morte.
Eu vi a cor do segundo soco, era vermelho com pontinhos que piscavam azuis. Azuis ou brancos?
Eu nunca poderia dizer. Eu já não conseguia contar quando ele saiu de cima de mim.
Eu vi um outro vulto me penetrando e depois outro. Para esses eu não senti mais nada. Eu não ouvi mais nada.
Meu coração diminuiu o ritmo como numa freada, assim como tinha adquirido uma hipersensibilidade, naquele momento eu estava parando de sentir. Meu corpo foi adormecendo de forma que eu me sentia entrando numa piscina de fluído branco.
Minha morte iniciou-se por uma lambida e minha vida foi resgatada por outra.
Acordei sentada numa cama, com Mike lambendo meu rosto. Eu estava trocada, com roupas limpas, que inclusive eram minhas roupas e com um celular na mão.
Aos meus pés tinha um pacote de pó branco.
Meu raciocínio só se completou quando três policiais armados adentraram no quarto declarando minha prisão.
As luzes agora eram vermelhas e giratórias...
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