Estava muito escuro e gelado.
Sentia meus pés pisando no molhado, mas não havia lugar seco. A água
tinha uma coloração diferente, como se estivesse misturada com tinta, barro ou
algo avermelhado. Era sangue.
Saí correndo para procurar a
saída ou simplesmente um chão seco. Onde eu estava? Os cômodos eram enormes, as
entradas não tinham portas.
Entrei num desses cômodos e percebi
que tinha mais alguém ali. A “água” já não estava gelada, pois quanto mais eu me
aproximava da pessoa, mais quente e viscosa ficava, como se estivesse me aproximando da fonte.
A pessoa se agachou e fez um movimento
com o braço como se estivesse apunhalando algo. Então eu ouvi o grito. Não tive
tempo de pensar. O meu instinto me fez gritar em resposta, Foi nesse momento que pude ver o
rosto da "pessoa" que se virou para me olhar. Por alguns instantes acreditei que
estivesse em frente a um espelho, mas percebi que ela estava com uma faca na
mão e eu não.
Ela era eu.
Ela tinha meu rosto, meu corpo,
minhas expressões. Mas porque eu estava fora de mim? Porque eu não podia controla-la
então?
Ela estava esfaqueando um porco e
ele gritava e chorava enquanto a faca entrava e saia do seu corpo. Eu estava
olhando a cena. Eu podia ver prazer nos seus olhos, mas os MEUS próprios olhos
choravam e estavam em agonia, eu podia sentir a dor do porco. Enquanto o meu EU
observador implorava para que a EU assassina parasse, uma terceira pessoa entrava
em cena, uma mulher de silhueta conhecida, mas que não consegui reconhecer, e
dizia algumas coisas no ouvido da Camila Ruim, conforme as palavras iam saindo,
mais ferozes as facadas ficavam e EU já não tinha forças nem pra chorar.
Agora eu via várias silhuetas ao meu redor, todas a incentivando a
matar o porco. Engraçado como ele não morria nunca. A Camila espectadora já não
se movia, não chorava e não gritava. Porque ninguém ajudava o porco? Porque
ninguém me parava?
Foi quando duas mãos me sacudiram
e uma voz me dizia para que eu reagisse. Eu conhecia o toque daquelas mãos,
elas me deram força e então eu gritei, e gritei comigo mesma, para que eu
criasse controle da Camila ruim, porque ela era eu, de alguma forma aquilo era
verdade. E eu gritei: “eu não sou uma assassina”, “eu não sou uma assassina”..
- Camila! Camila! Acorda pelo amor de Deus – gritava ele me
chacoalhando pelos ombros e com olhos arregalados. Eu acordei e percebi que
mesmo tendo apenas sonhado, eu provavelmente reagia aos sonhos fisicamente. Eu
estava chorando e ofegante e por algum momento lembro de ter ouvido minha
própria voz .
- Foi só um sonho? – Não soou tanto como uma pergunta, ainda
estava analisando a situação ao meu redor.
- Que história é essa de assassina? O que você estava sonhando? O
que aconteceu na sua casa Camila? – Ele estava bravo e preocupado, pior do que
isso. Ele sabia que eu estava mentindo o tempo todo. Eu não sabia mais o que responder. - Me responde!
- Se eu disser você não vai me amar mais! - Ele bufou, olhou a hora e soltou uma risada cansada.
- Eu só deixaria de te amar se você matasse o Mike, de resto está tudo ok pra mim! - Ele me abraçou forte, beijou minha testa e caminhou até a cozinha onde buscou um copo d'água e acrescentou açúcar. - Tome e durma. Amanhã você me conta quem você matou, ok?! Espero que não da forma como tentou me matar hoje. - sorriu então maliciosamente, olhando para o meu corpo ainda nu.
- Obrigada. Te amo. - Ouvir todo aquele clichê que ele havia dito, de certa forma, me fez sentir melhor. Mas a água com açúcar não funcionou. Eu não sei porque raios uma pessoa acha que água com açúcar acalma alguém, que eu saiba açúcar agita nosso corpo. E foi exatamente assim que eu fiquei. Agitada. Acordada. Ansiosa. E fiquei ouvindo o tique-taque do relógio numa perfeita sinfonia com a respiração do Rodrigo. Vi o ponteiro do relógio passar pelo 3, pelo 4 e, quando passou pelo 5 já senti meu estômago reclamar de fome.
Não era para menos, a única coisa que eu tinha comido no dia anterior, já tinha sido expulsa do meu corpo. Foi então que eu tive uma ideia. Considerando a boa vontade do Rodrigo em me convidar para morar com ele, nada melhor do que surpreende-lo com um lindo café da manhã. Nós comeríamos, ficaríamos mais um tempo na cama, eu me aninharia em seu colo e só depois disso tudo contaria o que eu estava vivendo, fechando com a história do meu tio. Ele me entenderia e no final ainda ficaria do meu lado. Para falar a verdade eu acho que a pancada da Coca nem foi tão forte assim.
Resolvi seguir com a ideia, essa hora a padaria já devia estar aberta e ficava apenas a 3 quadras dali. Por via das dúvidas eu levaria o Mike, que não se importaria nem um pouco em ir comigo.
Levantei o mais silenciosa que pude, vesti uma roupa que trouxe na mochila, pus a coleira no Mike, escovei os dentes, prendi os cabelos e saí. Quando apertei o botão para chamar o elevador, Mike já estava atiçado pois sabia que ia passear. Foi então que me dei conta que tinha esquecido minha carteira e voltei. Eu tinha que pegar na minha mochila, mas o cachorro achou que eu tinha desistido de passear e começou a rosnar e latir.
- Shhhhhhh, Mike! Fica quieto! - Eu não queria acordar o Rodrigo, mas se eu não agisse depressa além do meu namorado, o prédio inteiro iria sair do sono. Foi então que vi a carteira dele em cima da mesa, sem hesitar peguei e olhei rapidamente para ver se tinha dinheiro ou algum dos seus cartões de crédito, pois eu sabia a senha de todos. Era comum que ele pedisse para eu sacar dinheiro enquanto ele estacionava o carro, ou pagasse uma conta enquanto ele empacotava as coisas no mercado. Eu iria gastar menos de 10 reais. Na volta eu pegava da minha carteira e já deixava para ele.
Coloquei a carteira dentro da minha calça e segui meu caminho com Mike. Não deixei bilhete nenhum, até porque não pretendia demorar mais que 15 minutos.
O sol ainda não tinha dado as caras, mas era possível já ver alguma movimentação de carros. Um deles me chamou atenção, pois andava lentamente do outro lado da rua e era ultrapassado por todos os outros.
Enquanto pensava no que poderia estar ocorrendo com aquele carro, o motorista resolveu abaixar o vidro e estremeci ao ver quem dirigia.
- Camila, hey Camila! - Ele acenava desesperado.
- Mariano? O que está fazendo aqui? De quem é esse carro? - Por que meu ex namorado estava dirigindo um carro que não era o dele e pior, aquela hora e naquele local?
Ele estacionou o carro e veio na minha direção. O Mike começou a ficar incontrolável a latir, a pular e a querer morder o Mariano, eu nunca o tinha isto assim.
- Fica calmo Mike, ele é chato mas não faz mal - Disse numa altura que o Mariano pudesse escutar.
- O chato aqui estava preocupado com você, aliás está todo mundo preocupado com você. Onde você estava? Sabia que você é uma das suspeitas do crime? - Ele aparentava estar nervoso, mas de uma forma que nunca o tinha visto antes.
Quando nos separamos foi uma surpresa muito grande para todos e principalmente para ele. Nós já estávamos juntos há 3 anos e já tínhamos uma previsão para noivar. Ele sempre foi muito apaixonado e grudento, e eu sempre fui a desligada do relacionamento.
Foi depois de um trabalho da faculdade, onde eu teria que relacionar os pensamentos do livro "O mundo de sofia" com os pensadores que estávamos estudando de psicanálise que comecei a questionar sobre minha vida.
No livro a personagem principal recebe um bilhete com a pergunta "Quem é você", ela então não consegue responder essa pergunta sem estabelecer conexão com outras pessoas ou coisas. Como se ela não existisse se não fosse por essas funções, por exemplo, ela era filha de Ciclano, estudava no colégio Tal, era cliente de Beltrano e etc. Mas ela, no final, não era ninguém. O modo de olhar era para ser um pouco mais profundo, mas talvez se a Shakira recebesse essa pergunta, ela só tivesse que responder que ela era A SHAKIRA.
Sendo assim eu resolvi pensar que a garota do livro era patética. E então eu me dei conta que eu era tão patética quanto. E minhas associações eram mais patéticas ainda. Resolvi que deixaria de ser como a menina do livro. Meu primeiro passo era ser um referencial num círculo pequeno, então me tornei a melhor da sala. Passava horas estudando após as aulas terminarem e sempre lia conteúdo extra. Passei a frequentar a biblioteca da cidade e as livrarias mais próximas.
Foi numa ida à biblioteca que eu conheci o Rodrigo, ele estava procurando um livro sobre expressões corporais e quando me perguntou eu pude dar 3 opções de livros de diferentes autores e ainda disse qual era o foco de cada um. Naquele momento eu vi o olho dele brilhar. Ele me perguntou se eu trabalhava lá, eu ri e respondi que era só uma frequentadora assídua, sorri e fui para minha mesinha de estudos. No mesmo dia ao chegar em casa me encontrei com o Mariano. Contei para ele o que eu tinha aprendido e como eu tinha ido bem numa discussão sobre a forma que Freud tinha conseguido libertar uma pessoa de um trauma apenas interpretando o sonho dela. Nunca irei me esquecer daquela frase. Ele virou para mim e disse que teria gastado menos tempo se a mulher ao invés de chorar sobre os problemas para um desconhecido, tivesse ido lavar uma louça ou procurado algum trabalho para entreter a mente, pois pessoas que são pobres e precisam trabalhar não tem tempo para traumas e depressões.
No início achei que ele estivesse brincando, pois ele estava desmerecendo a minha futura profissão. Mas quando ouvi, tanto ele quanto meus pais, darem risada e concordarem com aquilo, eu entendi que estava cercada de pessoas patéticas e que se eu quisesse ser algo melhor teria que encontrar novos círculos de pessoas para passar meu tempo. Nós somos a média das 5 pessoas que convivemos, com o Mariano na minha vida eu nunca seria uma SHAKIRA.
Uma semana depois do ocorrido, eu terminei o namoro.
E como num flash eu voltei todo esse tempo e retornei para a realidade. Fazia quase um ano que já não estávamos juntos e lá estava ele no meu pé ainda. Porém a última frase tinha mexido comigo. O que ele quis dizer com crime?
- O que você quer dizer com crime? - Minha voz quase não saiu.
- Você não sabe mesmo então? Eu sabia que você não tinha nada a ver com isso.
- Isso o que? - De repente tudo estava voltando a tona. Eu tinha matado meu tio. E agora? O que eu faria?
- Seu tio foi encontrado morto na cozinha da sua casa. Uma ferida na cabeça, 5 facadas pelo corpo e uma certeira no coração.
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