O relógio ainda marcava 20:34, a
hora insistia em não passar. Minha perna direita tremia num vício inconsciente,
eu roía as cutículas da mão esquerda e a mão direita no mouse clicando
ansiosamente no botão para atualizar a página. O Facebook era minha única
esperança de passar o tempo naquela tarde fria, mas não estava funcionando.
“Vou mandar mensagem pra Gess.”
pensei.
- Oi amiga! – respondeu Gess.
- Oiiieeeee! Ain amiga ainda bem
que você respondeu! – respondi aliviada.
- O que aconteceu, Camila?
- Eu acho que você já sabe...
- Não vai me dizer que o seu
tio..?
- Nãoooo.Não ainda na verdade.
Mas é relacionado a isso. Lembra sobre o que eu te falei do que eu tava
pensando em fazer, mas por medo ainda não tinha feitoo?
- Aaaaaah, lembrei! Não vai me dizer
que ...?
Nessa hora eu suspirei, o ar
estava pesado pra mim.
- Você sabe que ele está em
casa,né?!- indaguei.
- Ainda?
- Pois é, e a convivência está
cada vez pior. Ontem ele passou a mão na minha perna enquanto eu fazia minha
unha na sala..
- Que horror amiga! Ninguém viu?
- Ele tenta se aproveitar dos
momentos em que todos estão distraídos ou saem. Como diria o Rodrigo, a
situação está insustentável.
- Eu ainda não entendi amiga, o
que você pretende fazer? E por que você não conta pro seus pais sobre esse
ridículo?
- Decidi que não vou dormir em
casa essa noite. Na verdade não queria dormir em casa nunca mais. Minha mãe não
me escuta nunca, não seria agora que ela me daria atenção. Se eu disser algo
sobre isso ela vai dizer que é implicância e blábláblá. Você já sabe da
história.
- E o que o Rodrigo acha disso?
- Ele ainda não sabe. É melhor
que não saiba. Ele é muito certinho.
- Mas por que você decidiu fazer?
Se for apenas por uma noite, fica aqui em casa. Não toma nenhuma decisão agora,
eu sei que as coisas estão difíceis na sua vida, mas é só uma fase. Você sabe
que isso vai te marcar pra sempre, não tem como voltar atrás.
- Tenho muito medo do nojento do
meu tio me fazer algo. Com o Rodrigo que eu amo, eu travo, imagina esse gordo
velho seboso.. – na mesma hora senti meu estômago revirar.
- Ele vai ficar muito tempo
ainda?
- Na verdade não. Depois de
amanhã ele vai embora. Mas sinto que ele não quer ir embora sem fazer um
estrago, sabe? O pior é que a mulher dele é uma sonsa, finge que não vê nada.
- Dorme com uma faca do lado se
resolver ficar por aí. Legítima defesa, não dá nada. Hahaha – brincou ela,
quebrando o gelo.
- Tem que ser uma faca bem grande
pra entrar naquela pança de porco! Kkkkkkkkk – naquele momento extravasei com
uma risada que estava presa.
- Essa foi boa amiga!
Kkkkkkkkkkkkkk – riu ela do outro lado.
- E você sabe o jeito que se mata
um porco né?! Uma facada certeira no coração! Kkkkkkkkkkkkkk – eu chorava de
rir.
- kkkkkkkkkkkkkkkkk. Que medo de
você. Tenho que ir Cá! Hoje eu vou pra facul a noite pegar uns livros.
- Ok. Eu te ligo amanhã pra
contar! Bjão.
- Beijo flor, e não esquece. A faca do seu ladinho!
Kkkkkkkkkkkkk
- kkkkkkkkkkkkk.
Ainda estava rindo suavizada
quando o telefone tocou. Número desconhecido.
- Alô?
- Oi, linda! É a
Juliana, td bem?- Não gostei da surpresa que eu tive
- To bem sim e vc? Pq tá com esse número estranho?
- Tava sem crédito no meu e
resolvi usar o de um conhecido.
- Ah, entendi..
- E meu pai tá aí ainda?
- Está sim. Mas já vai embora
depois de amanhã. – tentei responder sem emoção.
- Você ficou sabendo o que ele
fez comigo, que ele não quis me ajudar? – “que drama”, pensei.
- É fiquei sabendo sim, mas deu
tudo certo? – na verdade eu não estava interessada em saber.
- Que nada, cortou tudo aqui em
casa. Tive que rebolar pra pagar pelo menos a conta de luz, pq agua, tv,
internet e telefone não deu.
- Ah, entendi...
- E você vai sair hoje? –
perguntou ela.
- Não sei – menti.
- Ah, vai sim, aproveita a vida.
– Ela era dessas primas que casaram cedo e vêem na gente um meio de compensar
isso, nos estimulando à promiscuidade .
- Não sei, meus pais andam
pegando muito no meu pé.- desabafei.
-Bom, é que você mudou muito né, Camila?!
– disse sem rodeios.
Não gostava quando me falavam
isso. Eu sempre fui um modelo de menina. Educada, estudiosa e durante certa fase da vida, muito religiosa. Tanto que
a reclamação que meus pais tinham de mim era justamente minha retidão. Eu era a
única garota que conhecia que aos 19 anos era virgem. Isso não me incomodava de
fato. Na verdade eu não sabia o que me incomodava, só sábia que havia cansado.
Parei de ir a igreja, mudei minhas roupas, mudei minhas músicas, mudei meu
cabelo, terminei com o namorado e saí do
emprego em que estava, por que simplesmente estava cansada do meu patrão. Na
verdade não acho que mudei, acredito que finalmente tinha permitido ser eu mesma.
Estava cansada de correntes e cadeias. Acho que os “nãos” me incomodavam.
Meus pais começaram a perguntar
incessantemente se estava tudo bem e aquilo me incomodava ainda mais, eram
todos os dias ao chegar da faculdade as mesmas perguntas. Comecei a chegar cada vez mais tarde em casa
pra me livrar do interrogatório e só piorei as coisas. Associaram meu
comportamento às drogas. Como se eu usasse drogas.
Eu ainda era virgem, ainda era um
boa menina e ainda acreditava em Deus, mas estava cansada de usar uma embalagem
que descrevia tudo isso, não queria ter a obrigação de ser tudo isso, mesmo
sendo assim sem esforço.
As coisas pioraram quando conheci
o Rodrigo. Fazia pouco tempo que tinha terminado o relacionamento anterior, uma
chatice de relacionamento pra falar a
verdade, e passei a sair mais e chegar mais tarde em casa. O problema é que o
pé no saco do meu ex não parava de me importunar. Ligava umas dez vezes por dia
e mandava mensagens falando de suicídio. Quando parei de atende-lo e de dar
moral pras suas conversas moles, ele passou a ir em casa e se tornou o maior
cúmplice da minha mãe em me encher o saco. Foi nessa época que cortei
definitivamente as relações em casa. De boa moça me tornei a rebelde “sem
causa”.
Na maioria das vezes eu nem estava
com o Rodrigo. Gostava de ficar na faculdade até tarde, lendo, estudando e
participando de alguns projetos extracurriculares que sempre apareciam. Eu estudava
psicologia e era a melhor aluna da sala
Ninguém sabia quem era meu atual
namorado, além da Gess e da minha prima Juliana, e essa última na verdade só
sabia por que me viu chegando no carro dele e fez questão de se apresentar. Eu
odiei aquilo, sabia que ela não era confiável. Tanto que no outro dia meus pais
me chamaram pra conversar dizendo que não aprovavam o meu namorado, que ele era
a causa do meu mau comportamento e que eles gostavam do meu ex. E daí? Eu pensei.
O Rodrigo era tudo que eu sempre
quis. Um homem que me amava, e que eu era louca. Tinha um sorriso grande, mas
difícil de mostrar. Pele clara, olhos e cabelos castanhos. Parece até um tipo
normal, porém com toda essa normalidade, ele sabia se fazer singular, peculiar.
Não era alto e nem baixo, bastava apenas eu ficar na ponta dos pés para
beija-lo. Ele era um rapaz sério, com poucas expressões faciais, talvez até por
causa da profissão, ele era advogado, mas eu conseguia decifra-lo. Ele tinha um
ponto fraco. Os olhos. Eu me apaixonei por aqueles olhos, tão castanhos, tão
singelos, no entanto eram capazes de demonstrar tudo aquilo que o corpo dele
sentia, mas que estava treinado a não transparecer.
Sempre que nos encontrávamos,
além dos abraços e beijos normais, eu mimava aqueles olhos, estava a toda hora
dizendo o quanto gostava deles e adorava beijar no espaço entre eles e o começo
do nariz. Era um carinho que marcava o nosso relacionamento.
Eu não acreditava que estava
ficando tão melosa. É, realmente eu mudei muito.
(...)
- Graças a Deus eu mudei né?! As
pessoas precisam evoluir as ideias medíocres que colocam nas cabeças delas –
respondi sem medo da reação dela.
-Ai prima, não fica nervosa. É
que antes você era tão boazinha, não saía. Agora tá até namorando escondido.
Mas vc tá certa, tem que aproveitar a vida mesmo. E se vc for sair hoje, pode
falar pra sua mãe que você vai dormir em casa, aí você volta amanhã cedo.
- Posso mesmo? – Nem estava
acreditando naquela oferta que ela estava me fazendo. Era a solução pra minha
noite!
- Claro que pode!
- Então vou fazer isso! Vou sair
daqui umas 21:30.
- Então blz. Você sabe se meu pai
vai sair hoje pra algum lugar? – perguntou.
- Parece que não
- Ah, ta bom então Camila. A
gente se fala. Beijos
-Bjs.
Eu nem acreditava que tinha
conseguido um álibi, assim do nada, uma desculpa perfeita.
O relógio já marcava 21:05, era o
tempo pra eu comer alguma coisa e sair. Minha mochila já estava arrumada.
Quando entrei na cozinha pude
ouvir meu pai e meu tio na copa, eles
estavam entretidos numa conversa sobre caça e pesca. Resolvi não prestar
atenção e focar no que eu queria, comida! Abri a geladeira na esperança de
encontrar algo gorduroso e que me ocupasse com o prazer de mastigar. Encontrei
um pedaço inteiro de mortadela, sem abrir ainda. Coloquei- o sobre a pia, mas não encontrava
nenhuma faquinha de serra, resolvi então perguntar ao meu pai.
- Pai, cadê a mãe?
- Ah, acho que ela já foi deitar.
O que você quer?
- Quero uma faquinha de serra, o
senhor não sabe onde ela guardou?
-Ah, não sei não.
Nisso eu vi meu pai passando por
mim em direção ao quarto. No mínimo deve ter ido perguntar pra minha mãe, pensei.
Mas eu não estava a fim de
esperar. Estava ansiosa e com fome. Queria comer logo e sair correndo dali.
Abri algumas gavetas na esperança de achar a bendita faquinha, na última
encontrei algo que me fez rir. Era uma faca, devia ter uns 20 centímetros fora
o cabo. Muito afiada e com uma ponta fora do normal. “Dá pra matar um porco” –
pensei.
- Vai você mesmo – disse sorrindo
e passando a água na faca para tirar qualquer eventual sujeita
Peguei a faca com a mão direita e
com a esquerda segurei a mortadela.
Confesso que entendi por alguns instantes o prazer de enfiar a faca num corpo,
existe uma certa resistência na tentativa de penetra-lo com a faca, porém,
quando uma pontinha entra, é como se a vítima se rendesse e deixasse você com o
poder de decidir nas mãos, o prazer maior está em vencer essa resistência e
sentir o deslizar da faca até a última fração de carne. É claro que no meu caso
a vítima já estava morta ha muito tempo, mas esse sentimento psicopata me
dominou alguns instantes.
Mordi o primeiro pedaço da
mortadela e quase dei pulos de prazer. Já tinha uma mania para me tornar uma
hipster, só comer a mortadela que eu mesma cortar. Hahaha.
Depois dessa piada interna fui
buscar algo de beber na geladeira e achei a melhor coisa que poderia ter.
Coca-cola em vidro! Coloquei a garrafa em cima da mesa e resolvi cortar mais um
pedaço do meu aperitivo. Cortei uma fatia fina, coloquei-a sobre a mão esquerda
e resolvi traçar algumas linhas sobre ela com a faca.
- Nem me chamou pro banquete –
ouvi um sussurro nojento no meu ouvido. Nessa hora dei um pulo e percebi que
minha mão estava vermelha. Jorrava sangue na pia da cozinha e só então percebi
que vinha da minha mão. A faca tinha feito um corte na diagonal inteira da
palma da minha mão por causa do susto. Eu não conseguia gritar e nem me mover.
Estava paralisada olhando pra ele.
Meu tio me olhava numa mistura de
maníaco com preocupado. Ele pegou minha mão, abriu a torneira e deixou minha
ferida lá embaixo da água por uns instantes. Não sabia o que pensar, só então
tinha me dado conta que a casa, tirando a cozinha, estava completamente
silenciosa e escura, ou seja, todos estavam dormindo. Não sabia se precisava
ter medo, ele estava me ajudando até
agora, mas e se ele tentasse alguma coisa, a faca já não estava na minha mão
para me fazer segurança e eu não sabia se conseguiria gritar.
Ele segurava forte a minha mão.
Foi quando ele tirou minha mão da agua e fez um movimento que eu demorei pra
acreditar. Ainda estava sangrando quando ele levou minha mão pra dentro do seu
short e fazia movimentos com ela massageando seu pênis. O sangue fazia minha
mão deslizar, eu não conseguia tirar minha mão, além do nojo eu sentia dor, meu
machucado parecia aumentar conforme os movimentos. Ele parecia estar se
divertindo, nem fazia esforço pra me manter presa. Comecei a usar a mão
direita para bater na cara dele, mas ele
a segurou. Os movimentos que ele fazia já estavam numa velocidade maior, eu não
queria deixa-lo gozar na minha mão, mas eu já estava perdendo as forças, minha
mão esquerda, a que estava sendo abusada, já estava ficando dormente. Foi
quando eu consegui gritar:
- Me solta! – Não foi um grito
alto, mas foi um barulho, o suficiente
pra ele soltar minha mão direita e tapar minha boca. Nessa hora veio uma
luz, eu vi a garrafa de Coca à minha direita e com um pouco de esforço consegui alcança-la. Sem pensar, usei a
garrafa para acertar a cabeça dele, fiz com toda a minha força e se desse pra
ter usado a alma eu a usei. Foi um momento de inconsciência o período entre eu ver a garrafa e ver meu
tio caído no chão com a garrafa de vidro quebrada ao seu lado. Eu só sei que
fiz. É como se quando você esquecesse que está realmente fazendo aquilo, você
poderia faze-lo da melhor maneira possível, ou simplesmente faze-lo.
Naquele momento lembrei de uma
citação de um dos livros da série “O mochileiro das galáxias” que só seria
capaz de voar aquele que quando em uma queda se esquecesse que estava caindo e
que não pensasse que queria voar, voar seria uma consequência da sua distração durante
a queda que poderia ocasionar a sua morte. Parecia impossível, mas nós humanos
fazíamos aquilo com mais frequência do que sabíamos. Mas é claro que eu não
tentaria voar.
Vendo o meu tio caído a minha
frente, voltei a sentir minha mão que agora formigava, pois meu tio não a
segurava mais tão forte a ponto de impedir a circulação do meu sangue e
voltei a sentir minhas pernas que eu nem
sabia que em algum momento tinha deixado de senti-las.
A consciência veio como um “Bin”,
um alerta. Ele estava totalmente imóvel, pus a mão embaixo do pescoço dele e
ainda havia pulso, nesse instante que o
toquei pude sentir sua respiração e dei um pulo de susto. Percebi que tinha que
sair correndo dali, antes que ele acordasse e quisesse além de me
estuprar, me assassinar.
Saí correndo pro meu quarto pra
pegar minha mochila. Minha mão ainda estava sangrando e doía muito, enrolei uma
blusinha que estava sobre a cama nela, joguei a mochila nas costas e decidi
pular a janela do meu quarto ao invés de sair pela sala. O meu medo era de ser
pega novamente pelo meu tio, ou ainda ser surpreendida pelos meus pais ou minha
tia.
Quando alcancei o portão de fora
da casa, levei um susto ao perceber que ele estava aberto, mas não quis
questionar a respeito disso, saí correndo e só olhei para trás ao virar a
esquina. Ao olhar vi um vulto no portão, não dava pra identificar quem era e se
era realmente alguém, não havia ninguém na rua ,não tinha folego pra gritar
socorro, e se eu gritasse teria que dizer que acertei uma garrafa na cabeça do
meu tio. Isso não seria muito bom. A única coisa que eu poderia fazer era
correr, e correr muito.
A casa do Rodrigo não ficava
muito longe ,mas em geral, eu demorava cerca de meia hora caminhando da minha
casa até a dele. Nesse dia eu fiz o percurso todo em 10 minutos. Eu
só fui perceber que estava chovendo quando cheguei na esquina da casa dele, que
coincidiu com o momento que tive que diminuir a velocidade. Eu parei em frente
a guarita, onde o porteiro me olhou assustado e sem me perguntar chamou meu
namorado pelo interfone.
Joguei a mochila no chão e tive
uma crise de tosse. Segurei nas grades do portão para não cair, eu sabia que a
qualquer instante eu poderia desmaiar. Depois de surto de tosse que me
encurvava e me retirava os restos de força, eu vomitei. Além de agua e do arroz
do meu almoço, pude identificar uns pedaços de mortadela que me fizeram de
certa maneira estar ali.
Depois de apreciar aquilo que meu
estomago rejeitou, levantei a cabeça e me encostei no portão. Pude avistar dali
o meu amado. E o inconsciente é foda.
Sabe aquele momento que você está num
lugar estranho e sente vontade de ir no banheiro, mas você consegue segurar
porque já está indo embora, e até então a vontade não é matadoura, porém quando
abre a porta de casa é como se já estivesse sentado no vaso, a vontade parece
insuportável e você sabe que é apenas porque você está chegando?
Foi a mesma sensação que tive. Eu
aguentaria esperar mais duas horas se esse fosse o tempo necessário pro Rodrigo
aparecer, mas quando ele apontou nas escadas, eu pude sentir meu corpo
relaxando e sabia que não ia demorar muito para a minha inconsciência.
Ao passo que ele ia se
aproximando, eu perdia a sensibilidade de uma parte do corpo. Primeiro degrau,
a boca, segundo degrau, os pes, terceiro degrau , os dedos da mão. O
interessante é que não tinha uma sequencia lógica, só sei que quando ele abriu
o portão e ficou a dois metros de mim, eu simplesmente parei de sentir
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